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Bistrô da Bia: a gastronomia da rua de baixo

Atualizado: 9 de fev. de 2023


Vi-me estrangulado por uma gravata. Pulsos palpitantes do aperto dos botões da camisa de manga comprida a sair sob o sol da tarde em meio aos carros estacionados em fila dupla por trás dos ministérios de Brasília. Relógio pontuava 16h e pouco. Corredor de concreto criava um bolsão de ar. Brisa de escapamento confunde-se com o vapor das panelas em ebulição. Passei por tantas vezes por ali e tentei por inúmeras ocasiões conhecer o Bistrô da Bia, o qual encontrava sempre fechado.


Dos trailers enfileirados a disputar a atenção dos menos favorecidos pelo cartão corporativo, mas dignos do tíquete-refeição, este era o que me saltava aos olhos há anos. Por frequentar muito pouco essas bandas (ainda bem!), precisava, de fato, de uma oportunidade geográfica para pousar por ali.


Enfim, a oportunidade. Tirei motivação extra para este périplo — em meio à multidão de servidores públicos e proletariados achincalhados pela precarização do sistema trabalhista — do camarada Joe, perspicaz gourmand da Brasília real, perseguidor de rabos-de-galo e churrasqueiro defumador, cuja costelinha suína é um dos insumos utilizados por Bia para coxinha das mais insinuantes.


Há raras estufas como a de Bia. Nem dá tempo para enchê-las, pois a fila se alonga a partir das 15h, quando abre ao público a colorida casinha de pintura mais classuda do que grafitagem hipster a decorar interiores de salão de restaurante "internacional".


Sistema eficaz de atendimento à Landi, mas muito sofisticado para permitir que as frituras do balcão de quitutes saiam do óleo quente até o repouso para perfeita secagem, completando sua jornada à mão do cliente em poucos minutos, antes que a salivação escorra pelas bordas das máscaras.


Bia garante coxinhas, enroladinhos, pastéis e outras receitas do repertório clássico nacional produzidos à excelência, servidos sobre resmas de espalhanapos, para se comer sobre o meio-fio. Mas Bia deveria saber que suas habilidades estão muito acima da legitimação da dólmã e da toque blanche da caricatura simpatissíssima estampada na lateral do trailer.


Numa aposta empreendedora, diante do justificado sucesso de público, o Bistrô da Bia abriu uma nova unidade recentemente em ponto comercial na Asa Norte, especificamente na 202 Norte, virado para a quadra. Cumpre função semelhante, pois ali serve os engravatados do Setor de Autarquias Norte.


Por enquanto sai só coxinha. Uma coxinharia. Mas não gourmet. Espero que jamais! Os recheios são combinações das mais interessantes. A prova de fogo é o clássico: coxinha de frango. Sem catupiry, é claro. Massa ultracrocante, de boa espessura, a permitir o descanso da arcada dentária na massa macia do interior e a consequente e satisfatória descoberta palatável de um recheio bem distribuído, temperado corretamente (particularmente sinto falata de uma pimenta de cheiro, mas aqui vai em outra direção) e, o mais importante para tanto: suculento.


Depois da missão da coxinha original, aventurei-me por um dos sabores criativos de Bia. Escolhi a chamada nordestina: carne-seca, queijo de coalho e banana-da-terra. Combinação ótima, sobretudo no contraste do doce umamoso da banana com o salgado da carne. O coalho apareceu muito timidamente, a ponto de questionar até sua contribuição para o ótimo resultado.


Não saberia dizer se de propósito, mas Bia subverteu a ideia do bistrô. Mais do que elevar um carrinho de rua à condição do modelo francês de restaurante casual com serviço ao ar livre, fez o contrário: enfim um bistrô digno de nota nesta Brasília cafona do ambiente intimista afrancesado. E isso vale para a nova lanchonete em ponto comercial, com ares de botequim.


Mas o importante é manter o trailer. Curioso como marginal à Esplanada dos Ministérios, às avenidas principais desenhadas por Lucio Costa e usadas para fins de gentrificação surgem esses oásis urbanos em forma de quiosques e trailers, à revelia do plano diretor, representantes da mais elevada produção de sabor e saber populares, a injetar vida à urbe artificializada que tentaram fazer de Brasília.


Afinal, Brasília mesmo acontece na rua debaixo daquela do noticiário político. Hoje nem posso, infelizmente, desfrutar do estonteante rol de formas douradas, texturas crocantes e recheios suculentos do Bistrô da Bia com o mesmo vigor de outrora, inconsequente, da juventude, livre dos assaltos (arroubos e arrotos) de um recém-descoberto diagnóstico de refluxo. Faltou-me a garrafada de espinheira santa a permitir tal aventura como deveria ser.


MENÇÃO DO CRÍTICO*


Vale a garfada





*A menção do crítico de 1 garfo é outorgada aos estabelecimentos reconhecidos por sua qualidade, na avaliação total pelos critérios objetivos e subjetivos descritos aqui, independentemente de categorias (pode ser um carrinho de comida de rua local ou restaurantes nacional e internacionalmente reconhecidos)


*Atualizado em 14/01/2023 a partir de post publicado originalmente em 14/03/2022 no meu antigo e desativado blog The Whole Beast.

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1 Comment


Vou muito no trailer perto do MRE!

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