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Degusta #2 - Espumantes brasileiros naturais e refrescantes

Degusta é a nova seção do blog Garfo do Crítico dedicado ao fomento e à reflexão acerca de vinhos, com ênfase especial na produção vitivinícola brasileira

Na degusta deste mês, foram avaliados mais três rótulos brasileiros. Todos com duas características em comum: refrescância e vinificação natural. São três das vinícolas mais despojadas, criativas e divertidas que temos por aqui. A degusta passou pelos terroirs mais consolidados e históricos da Serra Gaúcha e redondezas de Bento Gonçalves.


Faísca Pet-Nat Rosé 2021

Região: Pinto Bandeira

Tipo: Espumante rosé

Safra: 2021

Teor alcoólico: 11%

Uvas: Chardonnay e Pinot Noir

Barrica: NA

Prêmios: Medalha de Ouro 16ª Vinum Brasilis

Temperatura de consumo: 8º a 10º C


Notas do crítico: Esta é a maior estrela, a meu ver, das criações de Carlos Sanabria, este irrequieto e talentoso jovem (embora experiente) enólogo gaúcho radicado em Brasília. Sanabria faz uma abordagem única em seu laboratório de vinhos naturais, de mínima intervenção, que resulta em alguns dos mais divertidos, inusitados e instigantes rótulos do mercado brasileiro. Tudo bem que essa é uma característica compartilhada por outras vinícolas da nova tendência do vinho natural, como a própria Era dos Ventos, da qual falo a seguir. Faísca, especialmente a safra de 2021, me arrebatou. Um espumante natural não filtrado e não clarificado, vinificado em São Valentim do Sul (RS) com as leveduras selvagens das cascas das uvas, por meio de maceração a frio, extração do mosto sem prensagem com as cascas e primeira fermentação em cubas de aço inoxidável por 12 horas. Após engarrafado, faz a segunda fermentação por 45 dias. Há tempos não provava um espumante rosé de tamanha idiossincrasia, personalidade, complexidade e, ainda, frescor. Um dos maiores acertos do repertório do enólogo. Provei pela primeira vez em degustação às cegas na Vinum Brasilis. Foi meu favorito da seleção de 2021 e, surpresa, não é que foi o favorito na média do corpo de jurados? Primeiro lugar da feira. Provei novamente em duas ocasiões distintas e estamos diante de uma obra-prima no segmento de espumante - estilo já consagrado na viticultura nacional. Corpo leve, cítrico e puxado para fruta madura fresca, com um toque salino e ácido de picles. Mas ele se desenvolve em boca, traz uma untuosidade de manteiga, um quê de coco ou de castanhas e de panificação no paladar terciário, com tanta untuosidade que remete à memória de pão na chapa. Parece muita viagem de crítico, né? O paladar mais atento conseguirá decifrar. O vinho persiste, se pronloga em meio à perlage finíssima, mostrando características que ainda não consegui explicar. O vinho está esgotado. A nova safra de 2022, que está disponível, segue a mesma complexidade e repete o caráter frutado, vermelho, panificado e muito fresco, com talvez até mais elegância, sendo um 100% pinot.


Sobre o produtor: Vinhos Sanabria não é uma vinícola, propriamente dita. É um laboratório de vinificação, especializado em produção natural, de baixíssima intervenção e uso de leveduras selvagens. O projeto do enólogo e vinhateiro Carlos Sanabria é tocado em Bento Gonçalves (RS), onde ele acompanha pessoalmente o cultivo, as podas e a vindima de vinhedos de parceiros espalhados pelos terroirs da Serra Gaúcha, Campos de Cima, Serra do Sudeste e Campanha Gaúcha, no Rio Grande do Sul. Mas Sanabria é radicado em Brasília, onde assina os vinhos do Vinhedo Lacustre, uma vinícola urbana, e mantém sua loja própria na Asa Norte (407 Norte).



Fabian Nature Reserva


Região: Altos Montes/Serra Gaúcha (RS)

Tipo: Espumante branco

Safra: NV

Teor alcoólico: 12,7%

Uvas: Chardonnay e Pinot Noir

Barrica: NA

Temperatura de consumo: 6º a 8º C


Notas do crítico: Não canso de me surpreender com a simplicidade dos vinhos naturais de Fabian. Gostamos muito de ressaltar características de complexidade nos vinhos como atestado de grandeza. Pois aqui a simplicidade o agiganta. Este espumante branco de corte clássico borgonhês (Chadonnay com Pinot Noir) poderia fazer frente a muitos champanhes de território. Elaborado pelo método tradicional (fermentação na garrafa), passa 18 meses em contato com a levedura selvagem. Descomplicado, mineral, acastanhado (castanhas tostadas), de paladar muito cremoso, ácido na medida, com bolhinhas (perlage) fininhas e untuosas, me ganhou no frescor cítrico e levemente herbáceo. Altamente gastronômico, tive a chance de prová-lo em uma harmonização inteligente do sommelier dinamarquês Bertil Tøttenborg para o Aquavit. Por tanta presença e volume, acredito que foi o prato do chef Simon Lau, um pirarucu gravlax com tucupi, que acompanhou o vinho e não o contrário.


Preço sugerido pelo produtor: Não há (média de mercado: entre R$ 84 e R$ 130)


Sobre o produtor: Vinícola já tradicional da Serra Gaúcha, foi fundada pelos imigrantes italianos Antonio e Genuíno Fabian em Nova Pádua, próximo a Caxias do Sul na microrregigão de Altos Montes. Desde os anos 1970 cultivam a uma altitude de 780 metros uvas vitis vinifera clássicas, como Pinot Noir, Chardonnay, Merlot e Cabernet Sauvignon. A família realizou sua primeira vindima em 1985 e até hoje produz vinhos com tecnologia italiana, embora a flor-de-lis que marca os rótulos da casa revelem a ascendência francesa dos Fabian.


Era dos Ventos Peverella 2018


Região: Bento Gonçalves/Serra Gaúcha (RS)

Tipo: Espumante laranja

Safra: 2018

Teor alcoólico: 11,8%

Uvas: Peverella

Barrica: Usa vinho da reserva com 24 meses em 50% de carvalho francês 50% de ipê brasileiro

Temperatura de consumo: 6º a 8º C


Notas do crítico: 2018 é o grande ano desta incrível, inusitada e gentil casta de uva Peverella. Ao menos, pelo portifólio da Era dos Ventos, vemos aqui (inclusive no seu laranja tradicional) um espumante no perfeito equilíbrio entre o frescor ácido, com a evidente presença das leveduras e perlage consistente, com o ataque quase tânico e volumoso, conferido pelo uso do vinho base do espumante. A abordagem incomum e genial enológica consiste em um blend de duas safras da uva Peverella (2011, a safra das safras de Era dos Ventos, e 2018), que estagiaram por dois anos em madeira (metade carvalho francês, metade ipê nacional). No mais é produzido pelo método tradicional, refermentado em 2020, ficando em "sur lie"(sem dégorgement, mantendo as leveduras dentro da garrafa) por dois anos. Uma coloração âmbar linda e turva indica o método ancestral. Exala nos aromas um acastanhado forte, untuosidade de manteiga de cacau, frutas amarelas e um toque final cítrico e mineral. Ao prová-lo, sua boca vai encher de sabores bem clássicos de espumantes champenoise, puxando para um cítrico e floral, porém com um gosto agradável, bem umami, de resina, que conforta e afronta as papilas, trazendo inevitável desejo de um segundo gole.


Sobre o produtor: Era dos Ventos é uma vinícola brasileira de vanguarda, que representa um dos grandes êxitos da viticultura nacional em produção de vinhos naturais. É considerada a primeira casa a produzir no país vinho laranja (vinho branco posto em contato com as cascas). Luís Henrique e Talise Zanini, o casal de vinicultores que mergulhou nos métodos ancestrais para produzir vinhos únicos. Em vez de apostar em castas convencionais e vinificação moderna, preferem valorizar as cepas antigas já adaptadas aos terroirs brasileiros e vinificar com mínima intervenção e máxima expressão. A vinícola fica em Caminhos de Pedra, em Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul. Vinhedos começaram a ser plantados em 2004 e tiveram a primeira vindima em 2007.

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